Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Estou totalmente sem tempo para postar, ultimamente(no próximo post, explico o porquê)
Pra matar o tempo dos leitores, deixo aqui essa crônica do blog Sê Inteiro(recomendo fortemente) o qual tie a chance de coonhecer através, mais uma vez, do Pensar Enlouquece:



Minhas palhetas novas

No dia em que eu não contive as lágrimas, as palhetas do meu carro não contiveram a chuva que despencava sobre nós. Foi para que eu segurasse a barra que elas não suportaram o tranco. Bonitinhas, me deram umas boas gargalhadas no meio do caos. Quebraram super: a do carona só espalhava a água; a do motorista ficou com a perninha para fora do vidro.Então, isso faz tempo, quase duas semanas. De lá pra cá, deu pra driblar os chuviscos. Hoje cedo, foi um pouco complicado pegar estrada. Devia ter sentido: era sinal de que não vinha coisa boa pela frente. À noite, a chuva castigou. E não houve marcha lenta nem faixa da direita que resolvessem.
Eram 23 horas. Havia saído do jornal com planos bem determinados: vir pra casa, comer uma bobagem qualquer, ler um capítulo do livro da Ilana Casoy sobre os serial killers brasileiros e pesquisar o tema de uma pauta especial na internet. Tudo certinho.Menos de cinco minutos depois de ligar o carro, admiti que não chegaria em casa com aquelas cataratas do Niágara na minha frente. Liguei o limpador de pára-brisas e fui dirigindo inclinada na direção do banco do carona, onde a vista era um pouquinho melhor. Parei num posto:
- Moço, você tem palhetas?
- Tenho não.
- Nem que seja de outro carro, só pra eu chegar em casa. (O planejamento em pessoa. E seria capaz de rodar anos com o negócio adaptado.)
- Não, não tenho nadinha. Acho que você deveria ir ali no MercadoCar, aqui pertinho. Seguindo aquela avenida, no terceiro farol, vai estar a sua esquerda.
- Mas é 24 horas?
- É. E é o melhor que você tem a fazer. Eles têm tudo para carro e trocam na hora. E comprar em posto é roubada, muito caro.
Aceitei a sugestão do moço. Eram três faróis adiante ou sei lá quanto tempo esperando a chuva passar. Fui andando, de olho na metade do vidro do carona. As indicações estavam corretíssimas: terceiro farol, posto Shell e o oásis – MercadoCar 24 horas.Estacionamento cheio, fila comprida no caixa. Pensei:
- E lá se foi minha noite planejadinha.
No meio de tantas opções, nem hesitei, nem tentei ser autosuficiente:
- Moço, preciso de palhetas novas para o meu carro.Ele foi lá, perguntou marca e ano, e achou. Me ofereceu duas opções. Escolhi a mais cara, de R$ 63,90.
- Agora, me diga, essas palhetas não vão quebrar nunca, né?
- Não, mas daqui seis meses é bom trocar.
- Vocês instalam na hora?
- Sim. Se você pagar mais R$ 1, o João Leandro instala para você.
Sensacional. Todos os meus reais para que o João Leandro fizesse a bondade de instalar o negócio.Na fila do caixa, olhos e ouvidos atentos, foi tudo muito engraçado. Das 15 pessoas na minha frente, pelo menos umas seis iriam comprar palhetas novas. Chega um moço atrás de mim e comenta o tanto de gente. Concordo e emendo a venda em massa do negócio.
- É, quando chove (a água bate na bunda, pensei) todo mundo corre trocar.
Como assim, "todo mundo corre trocar", cara pálida? Eu nunca incluí uma grama sequer de planejamento na minha vida desregrada sobre troca de palhetas. Enfim...Nisso passam dois casais, digamos, bastante simples. Os moços com olhinhos agitados para as peças, puxando pelas mãos suas namoradas loiras rebolantes. Juro, tinha cara de que aquilo, para eles, era um programão. Mais e mais homens. Mais e mais olhinhos ávidos por novidades.Me dei conta, apoiada no meu par de palhetas como Chaplin segurando sua bengala, que, coisa óbvia, estava num shopping center de carros e carro é paixão do brasileiro e não podia ser diferente. Tonta eu que nunca atentei para os encantos dos volantes coloridos de neoprene, dos lubrificantes que duram séculos, das peças de motor feitas com aço de plutão (que nem é mais planeta, ainda me sinto órfã), das luzes de neon que brilham mais do que nas testas de muitos bichinhas.Volto à realidade. O bonitão fortão que chegou depois de mim na fila estava agachado fuçando enfeitinhos de pelúcia para o carro. Ele não ia comprar palhetas, tinha em mãos um potinho com líqüido roxo para deixar o carro perfumado. Lembrei de um amigo contando que, antes de casar, quando ia sair com uma menina especial, lavava e perfumava o carro. Se era uma qualquer, nem o carro tinha trato. "Então, quer dizer que se a gente sair num carro porco, pode ter certeza de que o cara não está nem aí, né?", perguntamos as meninas da mesa, tentando entender o complexo mundo masculino.A fila andou bastante até que eu visse um homem sujo de graxa na loja. Lembrei de uma matéria recente sobre o Tribunal do Júri em que entrevistei um mecânico. Ele disse que gostava de ser jurado e tal e fez piada: "Além do mais, é um dia no mês pra andar limpo." Adorei. E publiquei.Minha vez no caixa. Enquanto a moça fazia os procedimentos, eu assuntava sobre aquele novo universo que se descortinava a minha frente.
- Tá cheio isso aqui, né?
- Tá nada, menina. Tá calmo hoje.
- Mas tarde assim, mais de 23 horas?
- É, isso aqui é uma loucura.
- E o que mais sai? Essas palhetas?]
- Não, aqui vende de tudo. Tudo que você possa imaginar. (Imaginação não me falta. Juro que fiquei imaginando.)
Nota fiscal na mão, eu era a feliz proprietária de um par de palhetas Dynol 34S – D3C Spoiler. Produto original. Indústria brasileira. Certificado por vários Isos. Parecia que todos os meus (poucos) problemas na vida haviam terminado. E a embalagem dizia: "Palheta é item de segurança e deve ser trocada uma vez por ano." Que seis meses nada, vendedor!?!Passei ao lado da lanchonetezinha e pensei:
- Engraçado, tem gente que se sente tão à vontade aqui que fica à vontade até para comer um pastel.Vi um moço trocando a palheta traseira de um carro - sim, só comprei as dianteiras, uma coisa de cada vez - e não deixei por menos:
- Oi. Você é o João Leandro?
- Não. (risos) Ele nem veio hoje.
- Ah tá. Mas posso entrar na fila para você trocar as minhas?
- Pode. Você espera ali um pouquinho? (Apontou para uma areazinha coberta, cheia de carros.)Previ que o negócio iria longe e resolvi entrar na dança.
- Moço, o que você tem além de esfirra?
- Pastel.
- Eu quero um de queijo.Nisso passou uma moça, que subiu rápido a rampinha e derrapou com o pé direito.
- Precisa trocar o pneu, gata. (O autor da pérola estava na minha frente.)Não fiz cerimônia, morri de rir. Refeita, peguei o pastel, voltei para a areazinha coberta e fiquei ali, quase-solene: mão esquerda no bolso, palhetas debaixo do braço, pastel na outra mão. Não demorou nada, chegou a minha vez. E o moço foi lá, todo bonzinho trocar. Palhetas não são parafusadas, era só encaixar.
- Mas deixa eu testar, que elas estavam meio esquisitas.E lá se foi a perninha do motorista para fora do vidro de novo. Ele fez cara de espanto.
- Precisa levar no mecânico para parafusar isso. (Ele se referia à base do negócio.)
- Ah moço, conserta pra mim, vai?
Nem precisei insistir. Ele foi lá, pegou um alicate e voltou.
Bom esse pastel, né?
- É bom, sim. Tem bastante queijo.
- Esses dias teve um cara que reclamou. No dele veio pouco. Quase armou barraco.Tudo era aberto ali, mas mesmo assim perguntei se podia fumar. Ele deixou e foi tão queridinho que puxei papo.
- Como é o seu nome?
- Jaílton.
- Jaílton, eu sou jornalista. Agora que perguntei seu nome lembrei de um negócio engraçado. Eu cobri um pouco aquela história do buraco e o cobrador da van soterrada, que morreu, chamava Wescley. Nunca tinha ouvido esse nome. A mãe do cara foi muito ninja pra descolar Wescley. Fiquei com esse nome na cabeça. Hoje, precisei falar com uns militares em Brasília. Liguei lá na comunicação e perguntei com quem falava. "Tenente Wescley na linha." Disse um "quê?" tão espantado que ele repetiu meio injuriado. Deve ter pensado que era uma crítica, tadinho.
- Dois Wescleys em 15 dias? (Espertinho o moço.)
- Pois é. Agora que perguntei seu nome, pensei: "Já pensou se ele também se chamar Wescley?"
Ele apertou bem apertadinho o negócio lá e perguntou o que eu tinha feito pra ficar daquele jeito. Respondi que nada e seguimos com os testes. Até que ficou tudo pronto. E eu quase me emocionei ao ver o movimento harmonioso, compassado, siamês das minhas duas palhetinhas. Abri a carteira e dei uma gorjeta gorda, para os parâmetros de quem torce o nariz quando tem que dar gorjeta.
- Obrigada, Wescley.
- Wescley não! Jaílton!


Até.

PS: Sabem aquilo que eu escrevi sobre o Big Brother?Esqueçam, já estou assistindo e torcendo pela Fani

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2 Comments:

At 10:49 PM, Anonymous vahnzz sam said...

esse negócio de ficar sem tempo pra postar é contagiante, tb to assim^^

a crônica é super maneira^^

te espero de volta

abração

sucesso

 
At 9:00 PM, Blogger Rick said...

Huahuah!!
Gente!! Cada vez melhor o seu blog!!
É, ri demais no "PS:", ah eu torço pela Flávia, acho ela tão legal!!
Enfim, ótimo texto.
Abraço.

 

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